por Ron Reason
De Miami a Seatle, de Los Angeles a Boston, cada vez aumenta o número de jornais norte-americanos que estão se redesenhando. Os editores necessitam de designs mais atualizados como consequência de múltiplos fatores: melhorias nas tecnologias de impressão, mudança nos sistemas de paginação, pressão da concorrência e, cada vez mais, a redução da página para um formato menor (em um esforço para diminuir os custos de impressão, os jornais norte-americanos reduziram os tamanhos dos módulos de publicidade nos jornais standard).
Quando se produzem ajustes, pergunta-se como é possível mudar um elemento do desenho mais apreciado pelos leitores: o corpo do texto. Não existem respostas fáceis. Numa época em que muitos jornais estão fazendo malabarismos com muitas mudanças – como formatos mais estreitos, aplicação das cores ou mudanças nas tipografia dos títulos – o tamanho do corpo do texto será diferente se suas características são alteradas. Mudanças nestas especificações, incluindo os espaços em branco, afetarão consideravelmente a legibilidade e a familiaridade com o texto.
O designer Tim Harrower comentou após ter analisado a nova aparência do diário The Oregonian, lançada no início de 1999: “Quando se reduz a altura da página tem uma questão a se fazer: se para ganhar espaço reduz-se os elementos do design – títulos, fotografia e especialmente o texto – pode sacrificar o impacto a legibilidade. Se deixar da mesma forma, os repórter e leitores podem se sentir enganados, já que estaria eliminando entre 5% a 10% de cada artigo. Trata-se de uma decisão arriscada e seguramente haverá alguém que se queixe das mudanças. Os próximos pontos compreendem alguns dos critérios que os especialistas em design levam em conta com relação ao tratamento tipográfico para o corpo do texto.

The Oregonian atualmente trabalha com as tipografias Interstate, Minion e Utopia
ECONOMIA
Quantas letras e palavras cabem em cada linha? Não depende só da escolha da tipografia e do seu tamanho, mas também de fatores técnicos como a hifenização ou justificação do parágrafo. Muitos designers buscam um mínimo de cinco ou seis palavras completas em cada linha de texto na coluna. Com menos de cinco palavras completas por linha o olho do leitor começa a estranhar. Seguramente será um desafio para uma página como uma área reduzida a média de 11 polegadas, especialmente se se trabalha com uma grade de 6 ou 7 colunas (por esta razão, muitos jornais estão valorizando a utilização de 5 colunas em páginas limpas. Mas dentro das páginas parcialmente cheias de anúncios, a maioria dos grandes jornais continuam a utilizar 6 colunas).
“É extramamente importante que o número de caracteres e o número de palavras por linha seja alto”, comenta Deborah Withey, consultora de design de jornais da empresa Knight-Ridder. A questão está em estabelecer um tamanho grande de letra para maximizar a legibilidade e ao mesmo tempo proporcionar um número suficiente de palavras por linha.
Algumas tipografias permitem uma maior economia de palavras por linha do que outras. A Charter, da ITC, e as novas coleções de tipos da Poynter para periódicos apresentam a “altura do x” para fazer com que a letra pareça maior do que outros tipos com os mesmos tamanhos. “As tipografias da Poynter, além de ter uma grande “altura do x” (a parte mais importante do corpo de uma letra) são também distintivas e majestosas”, afirma Lucie Lacava, designer canadense de jornais que exalta a economia das tipografias da Poynter e as recomenda extensivamente. (Entre seus trabalhos se encontra o aclamado desenho para o National Post, novo diário canadense lançado em 1998).

Poynter Old Style
O envelhecimento dos leitores de jornais causa inquietude para especialistas como Mario García, que já desenhou mais de 450 jornais em todo o mundo nos últimos 25 anos. “Hoje sempre emprego textos com 10 pontos em todos os projetos, depois de encontrar leitores nascidos em meados do século XX que precisam de óculos para ler e provavalmente continuam lendo por mais 30 anos, mais ou menos”. Lucie Lacava complemente que “maior é melhor!” Aconselha que não há que se preocupar com o tamanho exagerado de pontos. “Desconsidere o tamanho do ponto, já que a “altura do x” (aparência visual) é o que realmente importa”. (Em um redesign), “nunca inclua uma tipografia que fique pequena visualmente comparado ao que está lendo atualmente”.
INTEGRIDADE
Em um esforço por conseguir uma maior economia, os designers são muitas vezes tentados a empregar algumas técnicas desaconselhadas pelos especialistas. A primeira se denomina condensação artificial dos caracteres. Enquanto algumas tipografias podem resistir a uma condensação abaixo de 95% sem que se produza uma perda sensível de legibilidade (no QuarkXPress está característica se chama de “escala horizontal”) são poucas as que podem suportar uma condensação maior. Os próprios tipógrafos detestam essa manipulação de seus desenhos originais; em tipos de qualidade, o desenho de cada letra foi cuidadosamente pensada em função de outros elementos. Ao ampliar o número de letras e palavras por linha, através da condensação – segundo os criadores – não se manterá essa integridade.
A segunda técnica se chama condensação anamórfica, ou redução desproporcional do tamanho da página do jornal, para compensar com as dimensões estreitas. Ambas técnicas resultam na perda da integridade do desenho original do tipo e, muitas vezes, a distorção provoca estranhamento e dificuldade de leitura. Mesmo que alguns tipos possam sobreviver a este processo, outros elementos visuais como fotografias com rostos de pessoas e logotipos podem ser afetados. Como comentou Lacava: “Ops, a tipografia está boa, mas o que aconteceu com o logotipo deste anúncio da Mercedes?”
A maioria dos diários que adotaram a conversão anamórfica largaram a técnica quando estas distorções ficaram muito aparentes nas provas de impressão.
PRODUÇÃO
Existe uma variedade de considerações técnicas que afetam a legibilidade do corpo do texto, citadas abaixo:
Sistemas de paginação: ultimamente estão aparecendo muitos jornais com alguns sistemas de desenho de página que restringem o estilo da tipografia selecionada para o corpo do texto. Por exemplo, os jornais que adotaram sistema como o CCI ao menos devem decidir logo a tipografia do corpo do texto, já que grande parte do processo de codificação gira em torno desta decisão. “A CCI pode trabalha rcom qualquer tipografia compatível com o Adobe Postscript, exceto com múltiplos masters. Nós testamos todos os nossos tipos com este sistema e imprimimos em papel”, afirma Jeff Glick, diretor criativo do jornal Sun-Sentinel, que adotou o CCI. “As ferramentas do CCI para ajustar a tipografia são boas, mas não resolvem os problemas que podem surgir no tratamento do tipo da letra. Recomendo que se revise o sistema de ajuste do kerning (criando pares de kerning adicionais ou editando os já estabelecidos) antes de carregar em seu sistema de paginação e nos servidores relacionados, nos dispositivos de saída e nas estações de trabalho. Podes obter uma tipografia mais estreita e eficiente”. Esta atenção com o detalhe é recomendável tanto para tipografias dos títulos como para o corpo do texto.
Qualidade da impressão: se teu papel é impressão em tipos móveis, em flexografia ou em offset, isto afetará o corpo do texto escolhido. Os finos detalhes que se pode conseguir com a offset, por exemplo, nõa é possível com tipos móveis (que em geral contam com uma idade avançada, assim como uma tecnologia mais primitiva). Qualquer melhora na tecnologia de impressão pode requerir uma nova tipografia para o corpo do texto. O Sun-Sentinel decidiu mudar sua tipografia em um recente redesign, pois a tipografia original funcionava melhor em impressoras mais antigas. Segundo Glick, “a tipografia parecia muito áspera e rudimentar” quando se imprimia o jornal em offset, apesar de já estar em funcionamento desde 1989. Foram testados cinco tipos antes de se escolher a Imperial, com 10 pontos de tamanho e 11 de entrelinhamento. A série da Poynter, além de uma grande “altura do x” oferece uma variedade de pesos que os usuários podem escolher. A série foi desenhada para proporcionar aos usuários a opção de imprimir em distintas qualidades de impressoras. “Me encanta ter a possibilidade de usar um peso apropriado entre todas as opções que existem”, comenta Lacava. “Cada tipografia de texto deveria proporcionar opções de peso”.
Velocidade de impressão: enquanto a maioria dos redesigns foram testadas para utilização da impressão em uma tiragem limitada, muitas vezes em uma velocidade mais lenta, isto não significa melhor qualidade de impressão em condições normais. Um editor adverte que não se deve confiar nos testes de impressão quando executados em velocidade mais lenta e para grupos selecionados para sua avaliação. Segundo Peter Bhatia, editor executivo do recentemente desenhado The Oregonian, “mesmo que a tipografia do nosso novo design tenha parecido mais limpa e legível, em prova examinada pelo grupo reduzido de pessoas, a qualidade já não era tão boa quando se imprimiu em velocidade normal. Após o lançamento do novo design, um considerável número de leitores respondeu negativamente quando o diário pediu sua opinião; a equipe solucionou o problema aumentando o tamanho do tipo. Agora, afirma Bhatia, os leitores estão acostumados com o novo texto, assim como outros elementos atualizados pelo desenho.
PREFERÊNCIA PESSOAL
Por último, mas não menos importante, qualquer texto impresso em testes de desenho provocam comentários do tipo “me agrada/não me agrada” por toda a redação – e a diretoria – que determinará em última instância o caminho que se percorrerá. O impacto de ver algumas propostas inovadoras podem soar estranhas ou pouco familiares. É uma boa ideia deixar um pouco a nova aparência e revisar as propostas por dias ou semanas depois. E assegurar que a decisão está tomada de acordo com notícias atuais (não texto em grego!) impressas em papel jornal. As cópias simuladas impressas com impressora laser não proporcionam uma aparência exata do que sairá depois na impressão real do periódico.
Um pequeno conselho colocado em prática por Glick em seu Sun-Sentinel: alerte os leitores. “Começamos uma semana antes do lançamento, mandando artigos e notícias sobre as mudanças incorporadas com o nvo projeto e o processo resultou com uma coluna do editor do jornal, no dia do redesign, afirma Glick. Desta maneira, o diário julgava a vantagem de acostumar seus leitores ao incremento perceptível no tamanho do texto. “Ao final de tudo, deu certo. A maioria dos leitores responderam positivamente”.
Ron Reason é designer e integrou a equipe que desenvolveu o tipos da Poynter Institute, disponível para venda através da Font Bureau (www.fontbureau.com). Publicado originalmente no blog www.ronreason.com.
