A Folha de S.Paulo lançou no último dia 23/5, domingo, sua mais recente reforma gráfica-editorial. Desta vez, não era uma reforma com consultoria da García-Media, empresa do conceituado designer Mário García, como havia ocorrido nas duas reformas anteriores. A assinatura ficou por conta da designer Eliane Stephan, a mesma que cuidou da reforma de 1996, quando a Folha passa a ser impressa totalmente colorida.
Bem, nas semanas que antecederam ao lançamento, o jornal realizou uma extensa campanha de divulgação de sua renovação, trazendo a mesma ideia de contemporaneidade, maiores opções de leitura, novos cadernos – que acabaram substituindo os antigos. No resumo, a Folha estaria trazendo conceitos de como seria o _Jornal do Futuro.
A primeira observação que fiz foi justamente a troca de autoria do projeto gráfico (que fique claro que nada tenho contra o trabalho de Stephan), mas deixar de contratar mais uma vez o trabalho de uma consultoria internacional, dá-se a ideia de corte de custos, provavelmente o resultado da dita crise econômica que atingiu diversas empresas, inclusive o setor jornalístico (e mais ainda, os jornais). O restante foi apenas ansiedade para ter em mãos a versão 2010 da Folha, renovada.

Ciano promete resolver a uniformidade do jornal, mas traz berrantes combinações de cores nada elegantes e forte marcação dos títulos das notícias briga com os demais elementos de página
Comecei a ter logo uma ideia do que seria o _Jornal do Futuro no sábado, antes do lançamento do projeto reformulado, com o adiantamento de algumas novidades gráfica que viriam no dia seguinte: uma paleta de cores bastante esquisita para ser utilizada, talvez nunca teria visto combinações tão estranhas. Muito mais pela presença do ciano, que seria a cor dominante do projeto, inclusive ocupando o fundo do título dos cadernos. As cores do caderno de Esporte (ciano e amarelo) e a de Equilíbrio (ciano e verde) brilham e ao mesmo tempo brigam na visão de quem vê. Combinações de cores vizinhas (e não complementares) com a mesma temperatura e que pertubam a visão. Algo básico de quem trabalha com produção gráfica é evitar este tipo de combinação. A Folha chama isto de ser incisiva e elegante.
Após diversos ajustes realizados nos dois projetos anteriores, decidiu-se retormar as fontes exclusivas originais produzidas para a Folha, desenhadas por Erik Spiekermann e por Christian Schwartz. Mas o que há é um aumento exagerado do corpo e uma forte marcação desnecessária dos títulos, algo como utilizar uma tipografia black/heavy. Porém o resultado – que a Folha diz ser mais ágil e agradável – resulta numa tipografia que desequilibra e chama mais atenção que os demais elementos como a fotografia e o título do jornal. A antiga fonte que tinha uma terminação mais elegante nas serifas recebem um trabalho de ‘poda’ e ficam chatas se sem a elegância prometida.
No site, a tipografia também foi aumentada, no tamanho como se chamassem leitores de cegos. Ainda assim a integração entre jornal e digital ficou internamente na organização da redação. Para os leitores da internet, assinantes do UOL, não podem ter acesso a edição digital: apenas assinantes do jornal impresso podem ter acesso tanto a edição digital quanto a edição texto (fechada aos reles leitores internautas).
Talvez algo mais interessante, e que resultou mais positivamente no projeto, foram as novas opções de identificação de peças como ‘E Eu com Isso?’, destaque de traços opinativos, marcação de entrevistas e identificação dos colunistas. Mas, novamente, o ciano descabido é utilizado nestes destaques. Acabo tendo uma nova ideia de que é propositalmente para se gastar menos tinta e economizar na impressão do jornal.
Outro fator a ser observado nestas mudanças se trata da volta da modulação. Não acredito na ideia de que antes não havia modulação, é algo básico numa produção de um bom projeto gráfico. O que acontece é que muitas vezes o designer pode se livrar da prisão que o grid provoca e fazer uma diagramação mais livre. A ideia dessa volta a modulação soou como uma camisa-de-força à criatividade e obediência aos 12 módulos de 3,5cm estipulados pelo novo projeto. Isto é, um jornal quadradão.
Algo que esperava de um jornal do futuro, e assim mesmo um jornal em crise, seria a mudança de formato para o berliner. Seria importante para que jornais de maior circulação pudessem abraçar a causa pela redução de tamanho em consonância ao melhor manuseio do impresso por parte do leitor. Ficou mais do mesmo e a única redução ocorreu no caderno de Esporte, que virou tablóide. De repente, isto é só o começo.

Estrelas vermelha-ciano-preta foram espalhadas pelas páginas, mas são recursos de jornais da década de 1940, quando Andrés Guevara utilizava para isolar elementos da página. Nada de futuro nisso.
Outras ‘novidades’ nem são novidades: navegadores, boxs trazendo a outra versão da notícia e cadernos novos, que nem sequer adicionam conteúdo ao jornal, apenas substituem os antigos e os mais tradicionais. Geralmente causa uma revolta inicial dos leitores acostumados a ler o caderno ‘Mais!’ e não o ‘Ilustríssima’, a ver ‘Brasil’ e não ‘Poder’. Considero sim a dificuldade de se fazer um projeto gráfico para um jornal com o peso da Folha de S.Paulo, principalmente quando há o envolvimento de muitas pessoal e do dono da empresa, mas o que houve mesmo foi uma regressão no caminho que estava sendo trilhado.
O _Jornal do Futuro ficou apenas no marketing, uma modificação gráfica-editorial para ficar a mesma coisa. Quem tem paciência para ler calhamaços de papel da edição de domingo, onde se aproveita pouco do conteúdo, ou um jornal gigante de dimensões e difícil de se manusear enquanto está se tomando café ou se locomovendo no transporte público? O que se vê é um jornal em crise e cada vez mais pedindo por um futuro trágico.
Jornal do Futuro_?




2 comments
Chico Neto says:
jul 19, 2010
Tupiche! Realmente, pelo que apresenta o seu texto, a Folha está igual à praia fortalezense: Futuro, só não nome.
Giovanni says:
ago 11, 2010
Não acho que que tudo está perdido para a Folha. O jornal está melhor do que era antes e se acabar oque você chama de “um montão de jornal”, também vai deixar de ser “jornal”.
A cada reforma que a Folha faz, sempre há novidades. Dessa vez não foi diferente.
Não é necessário tentar achar “pêlo em ovo” falando de quem fez o jornal, que a Folha não tem grana para pagar uma consultoria internacional, entre outras críticas.
A Folha sempre será a Folha…que não dá pra não ler.
Sei que muitos irão continuar com a mesma opinião que a sua, mas fazer o que? É assim mesmo…
Boa sorte com suas próximas críticas!