24/06/2010 | História

Guevara e a revolução gráfica

Andrés Guevara em frente ao Museu Picasso, em Paris, em 1955 (Foto: Arquivo/Última Hora-PY)

Pouco se fala ou se sabe sobre dele, mas mesmo assim é um dos importantes personagens da renovação gráfica jornalística ocorrida no século XX. Trata-se do chargista, pintor e artista gráfico paraguaio Andrés Guevara (1904-1964). Alguns registros afirmam que ele teria nascido na cidade de Pilar, no distrito de Ñnembucú, porém uma pesquisa realizada pelo grupo Diseño Rendá, uma sociedade civil com objetivo de difundir o design gráfico, industrial e de moda no Paraguai, encontrou apenas um registro com o nome de Andrés Guevara Nuñes, nascido na cidade de Villeta, em 6 de janeiro de 1904. Seus pais, Antonio Guevara e María Nuñes.

Por causa da paixão precoce pela ilustração, decidiu sair de seu país aos 17 anos para viver na Argentina, depois de ter passado rapidamente por Uruguai e Brasil. Em Buenos Aires, Guevara trabalhou como ilustrador no diário Crítica e para as revistas Sintonía e Mondo Argentino, da Editorial Haynes.

O artista morou pela primeira vez no Brasil, em 1923, com apenas 19 anos. O Rio de Janeiro seria apenas uma escala para a Europa, após receber um prêmio em Buenos Aires de uma bolsa de estudos no exterior. Segundo seu biógrafo, o caricaturista, Cássio Loredano (1988, p. 9), foi convencido para ficar mais tempo no Brasil pelo embaixador paraguaio Modesto Guggiari. Acabou ficando por sete anos. Neste período, tornou-se caricaturista em quase todos os jornais e revistas da época: O Paiz, A Manhã, O Globo, O Malho, Crítica, Paratodos…, Illustração Brasileira e Cruzeiro. Também ajudou a fundar novas publicações como A Manha e Jazz.

Com a Revolução de 1930, durante a fase ditatorial de Getúlio Vargas, Andrés regressou a Argentina, só voltando novamente ao Brasil em 1943 (ou 1944), conforme explica Loredano (1988, p. 10):

Na sua segunda estada no Brasil, o desenhista Guevara tem menos importância do que o reformador gráfico da imprensa brasileira. Vindo de Buenos Aires e com um curso de artes gráficas feitos nos Estados Unidos no período da ausência, ele chegou cheio de novidades. Foi o introdutor no Brasil da ‘diagramação’ das páginas do jornal. O que até então se fazia, segundo Nássara, era ‘paginar’ as publicações: sem sistema, artesanal, lentamente. Guevara trouxe o cálculo e a tabela de correspondência entre a lauda datilografada (com um número preestabelecido de linhas e de batidas por linha) e a composição nos variados corpos tipográficos e larguras. E introduziu a folha milimetrada que permite a produção dos ‘espelhos’ das páginas.

É nesta fase também que ele começa a desenvolver projetos gráficos para jornais brasileiros e argentinos, como o primeiro projeto e logotipo de Clarín, lançado em 28 de março de 1945, a do Última Hora, do jornalista Samuel Wainer, lançado em 12 de junho de 1951, e a do redesign do jornal cearense O Povo, na edição de 16 de agosto de 1944. Guevara também desenvolveria layouts para o Diário da Noite e a Folha Carioca.

Trabalhos de Guevara: Primeira edição do diário argentino Clarín, exemplar do Última Hora e o jornal O Povo, de Fortaleza, após redesenho

Uma das características de seu trabalho como desenhista gráfico é a possibilidade de incluir textos sobre fotografias, algo raro para os recursos da época, a utilização de chamadas de capa para matérias internas e um uso intenso de estrelas como sinais gráficos, para isolar notícias ou margear chamadas. Como chargista, ganhava traços próprios e de relatar os principais ocorridos durante a 2a. Guerra Mundial.

Charges de Andrés Guevara publicadas em 1944 pelo jornal O Povo

De volta a Argentina, onde passa os últimos vinte anos de sua vida, passa a se dedicar também às artes plásticas. Em homenagem ao Paraguai, desenvolve uma série de pinturas denominadas Mujeres de mi tierra. Também trabalhou como ilustrador de livros. Andrés Guevara morreu em 3 de agosto de 1964, antes mesmo de realizar o desejo de expôr suas pinturas no Paraguai.

Em maio do ano passado, o grupo Diseño Rendá realizou uma homenagem ao artista paraguaio mais ilustre na cidade de Villeta, onde foi inaugurada praça com seu nome.

Seus últimos trabalhos como capista de livros, na Argentina

Encontro entre Andrés Guevara e o Barão de Itararé (Aparício Torelli), na redação da Folha Carioca, em 1944 e Guevara em foto publicada na Revista da Semana, em 17/06/1944

"Trabalhadores", de Andrés Guevara

Referências

CUNHA, Rodrigo do Espírito Santo da. Andrés Guevara e a evolução gráfica do jornal O Povo. Anais do VII Congresso Nacional de História da Mídia. Fortaleza: Intercom, 2009.

GESUALDO, Vicente. Enciclopedia de arte en America. Buenos Aires: Omeba, 1969.

HALUCH, Aline. A maçã e a renovação do design editorial na década de 1920. In: CARDOSO, Rafael (org.). O design brasileiro antes do design. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963.

LOREDANO, Cássio. Guevara e Figueroa: caricatura no Brasil nos anos 20. Rio de Janeiro: Funarte, 1988.

WAINER, Samuel. Minha razão de viver: memórias de um repórter. 6. ed. São Paulo: Record, 1988.

Comment Form