Embarcações atracadas em Macapá: tipografia vitoriana faz parte do cotidiano de quem mora na Amazônia (Fotos: Fernanda Martins)

Quem mora ou conhece a Amazônia já deve ter se deparado com a quantidade de tipografias decorativas e cores espalhados pelas embarcações e pelos diversos estabelecimentos comerciais. São pinturas feitas a mão, de maneira informal, alguns com bastante detalhismo, e que marcam o estilo vitoriano do século XIX. Este tipo de pintura prevalece na região, superando os próprios luminosos ou tipografia produzida por computador.

Fernanda Martins realizou uma pesquisa sobre a tipografia vernacular da Amazônia através de seu trabalho final da especialização em Semiótica e Cultura Visual, na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Pequenos estabelecimentos também adotaram esta tipografia (Foto: Fernanda Martins)

Seu trabalho, “Letras que flutuam: o abridor de letra e a tipografia vitoriana”, foi resultado de uma viagem em algumas cidades da Amazônia – nos Estados do Amazonas, Pará, Amapá, além dos portos das cidades de São Luís e Fortaleza, no Nordeste – para relatar a aproximação entre a tipografia popular nos barcos e estabelecimentos comerciais na Amazônia e seu estilo que se aproxima do tipo decorativo vitoriano, uma estética desenvolvida na tipografia do século XIX, época da Revolução Industrial e do surgimento da publicidade.

Os tipos vernaculares amazônicos seguem características do vitoriano, com letras divididas em duas partes, serifas diferenciadas, aplicação de sombra e com linhas de contorno. Os variados tipos de terminações ganham peso para facilitar a leitura.

Mesmo assim, a tipografia vitoriana é descriminada dentro da história do design por conta de seu exagero estilístico, desapegada nas fontes digitais desenvolvidas após o surgimento do computador.

De onde surgiu?
Martins tenta mostrar em sua pesquisa o por quê dessa ligação da tipografia vernacular e de sua influência vitoriana nos dias de hoje nas cidades amazônicas. Mostrou também alguns exemplos encontrados em outros países como na Argentina e Colômbia, e lembrou da aplicação do estilo nas carrocerias de caminhão.

Folha de rosto do Anuário do Estado do Pará, de 1898 (Foto: reprodução)

A explicação está no próprio desenvolvimento da região, ocorrida após a abertura dos Portos com a vinda de D. João VI, em 1808, com a abertura do Rio Amazonas para o comércio mundial e com a primeira companhia de navegação da Amazônia, fundada por Visconde de Mauá, em 1867.

A Amazônia vive neste período uma explosão de informações e publicidades vindas da Europa e dos Estados Unidos, principalmente e trazidas pelas companhias estrangeiras de navegação, casas aviadoras, bancos etc. Muitos desses livretos eram produzidos com tipografia decorativa. Também houve influência dos barcos e vapores norte-americanos que se instalaram na região, e utilizavam tipografia decorativa na assinatura.

A partir desta pesquisa, concluída em 2008, Fernanda Martins desenvolveu uma fonte digital a partir do levantamento fotográfico realizado na região (algumas fotos estão disponíveis no Flickr da pesquisadora).

Trata-se de uma manifestação cultural que até hoje pode ser vista no cotidiano de quem mora na vastidão visual da Região Amazônica.

Bibliografia
BRINGHURST, Robert. Elementos do estilo tipográfico 3.0. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
CARDOSO, Rafael (org.) O design brasileiro antes do design: aspectos da história gráfica, 1870-1960. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
FRUTIGER, Adrian. Sinais de símbolos: desenho do projeto e significado. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MARTINS, Bruno Guimarães. Tipografia popular: potências do ilegível na experiência do cotidiano. São Paulo: Annablume, 2007.
MARTINS, Fernanda de Oliveira. Letras que flutuam: o abridor de letra e a tipografia vitoriana. Monografia de especialização (Semiótica e Cultura Visual), Instituto de Ciências da Arte, Universidade Federal do Pará (UFPA), 2008.

Letras que flutuam