18/09/2010 | Design Editorial, Jornais, Revistas

Ready-Media e o design pré-fabricado

Já é de algum tempo que tenho refletido sobre o trabalho das consultorias internacionais de design, que atuam em jornais e revistas do mundo todo prestando serviços de redesign para publicações de todos os portes e conteúdos, e de diversas culturas. A pergunta é: será que todos esses jornais e revistas não estariam se assemelhando, por serem feitos por um mesmo escritório, como desenhos pré-fabricados e aplicados de forma idêntica?

Mario García, um dos mais importantes designers editoriais do mundo, afirmou em seu livro clássico – Pure Design – de que os trabalhos de redesign necessitam levar em conta, antes de tudo, os aspectos culturais de cada País e da própria história do veículo impresso. No capítulo específico, compara jornais de diversas regiões e cita como a cultura local influencia no aspecto dos impressos, como os jornais de aparência clara dos países nórdicos ou os periódicos supercoloridos da América Latina e da África.

"Design pronto, apenas adicione o conteúdo"

Pois bem, fugindo das considerações de García, outro conhecido designer editorial, Roger Black, lançou em julho um novo modelo de negócio para o design de jornais e revistas: um serviço de layouts pré-fabricados, onde o cliente consultaria o portifólio da empresa do designer, a Ready-Media, e escolheria os modelos de preferência. Bastaria apenas ao jornal ou revista inserir o conteúdo.

A proposta polêmica repercutiu em alguns blogs especializados de design editorial, como En Caja Baja, e fóruns de debates como o a Society for News Design (SND), que entrevistou o próprio designer. Uma das vantagens citadas por Black é de que o modelo incentiva veículos que não possuem condições de contratar o trabalho de um escritório internacional para também ter a oportunidade de apresentar um produto de qualidade visual.

Outra questão a ser levantada é da existência do emprego do designer. Com o sistema de Black, qualquer editor, jornalista, pode escolher o melhor visual para seu impresso, sem a intervenção do designer. Para Roger Black, as mudanças ocorrem inexoravelmente, desde a época do linotipo, quando havia dez vezes mais pessoas na produção de um jornal que nos dias de hoje. “Um bom jornalista visual será capaz de encontrar um bom emprego, mesmo nos tempos de crise. Mas as pessoas ficam nervosas com mudanças. Havia um grande boom no design de jornais nos anos 90, mas com a mudança do modelo de negócio da publicidade, já estava se começando a utilizar o mesmo modelo que agora a Ready-Media está lançando. Os diretores de arte precisam pensar cada vez mais nos leitores, assinantes do jornal, e menos com a exploração de seu próprio ‘estilo’ de vida”, declara Black.

Diversos layouts à disposição do cliente

Por outro lado, o blog En Caja Baja (em post assinado por Javier Vidal e Mario Benito) não acredita que os layout pré-fabricados possam estabelecer uma harmonia com qualquer conteúdo que for inserido. Assim como também de que um mesmo trabalho possa ser realizado em qualquer lugar do mundo por uma mesma empresa, aquém de qualquer cultura e do nível de educação do local, embora possam existir tendências que possam ser aplicados em qualquer veículo.

Claro que também é possível se levar em consideração uma série de interesses econômicos em cima de cada modelo pré-estabelecido no site Ready-Media. Afinal, qual a fundição responsável pelas tipografias existentes nos layouts da Ready-Media? Font Bureau, correto? Ganha a Font Bureau, ganha a Ready-Media (2x Roger Black).

Estilos de revistas já pré-diagramadas

Também não acredito no modelo de negócio de Roger, de que existam fórmulas mágicas para um jornal de sucesso, pois vejo que design e conteúdo funcionam juntos, num mesmo núcleo e de que o design precisa servir o conteúdo e não o contrário. Por experiência própria, é possível visualizar diversos projetos pelo mundo afora onde o visual não consegue ‘conversar’ com a realidade do veículo e de sua verdadeira função: informar o leitor. Como Vidal e Benito afirmam: “apenas o tempo dirá qual o melhor meio de economizar tempo e dinheiro: redução de custos ou investir no talento e personalidade da empresa”.

2 comentários para Ready-Media e o design pré-fabricado

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Ellen Cristie

Setembro 24th, 2010 at 19:43

Oi, Rodrigo! Tudo bom?

Sou de BH, trabalho há 16 anos no jornal Estado de Minas e gosto mto da área de design, embora seja uma apaixonada por texto (sou subeditora do Núcleo de Suplementos e Revistas)…e tenho um blog de saúde…gostei mt do seu blog, das discussões que vc levanta…vc já viu a reforma do Diário de SP?

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Rodrigo Cunha

Setembro 25th, 2010 at 00:31

Obrigado pela visita, Ellen. Vi sim a reforma do Diário de São Paulo. Eles estão vindo com idéias bastante interessantes. Apesar de achar que a proposta, por ser da mesma consultoria de design, se pareça com outro trabalho deles, o Correio* (de Salvador-BA). Mas o trabalho do pessoal lá de dentro me surpreende mesmo. Abs,

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